Não sei quem terá iniciado esta tendência, mas nunca como agora esteve tão em voga esta coisa do prudente silêncio.

Estou em crer que não há dia nenhum que em Portugal não apareça alguém a dizer, em jeito de resposta, que é necessário um silêncio prudente.

A diferença é que dantes havia quem dissesse que não queria falar, que nada tinha a dizer, que usando a linguagem gestual fazia o símbolo do fecho éclair na direcção da boca, na direcção dos micros, na direcção da câmara de televisão.

Hoje os mesmos que o faziam são os primeiros a dizer que é necessário um prudente silêncio.

Até porque dá para tudo, reparem bem: senhor presidente como comenta mais um orçamento rectificativo? Pois repare, tente compreender, sobre esse assunto parece-me que na minha posição terei de fazer um prudente silêncio.

Outra: o senhor diz que não cometeu qualquer crime mas no entanto há indícios vários de que terá feito desvios no valor de 3 milhões de euros para uma offshore em Lausanne. Como comenta?

Pois da única forma que me parece racional responder-lhe, com um mais do que necessário e prudente silêncio.
Só mais uma: é verdade que matou o seu vizinho de cima?

Ouça, o facto de estar ainda com o revólver na mão e a camisa ligeiramente ensanguentada não faz de mim um potencial cúmplice, se não se importa vou-lhe responder da única forma que me parece racional: com um prudente silêncio.

E Portugal assim anda, com pessoas que se habituaram a responder com silêncios prudentes, escondendo assim que não têm uma resposta, que não fazem ideia alguma do que irão fazer, que não sabem, que não querem tomar qualquer posição, que nada em si lhes revela rasgo ou verdade para trazer a público uma ideia, que corte com o silêncio — mesmo o prudente — e que fale, gesticule, responda, que diga “eu não sei”, que não tenha medo, que nunca se esconda atrás deste entediante, fastidioso e covarde: prudente silêncio.