O grande problema da minha vida não é a minha vida em si mas justamente a vida que perco à procura de coisas. Não há outra forma de o dizer, as coisas fogem-me.

E acreditem que não há aqui qualquer lado romântico no que agora escrevo, podia até ser uma metáfora de trazer por casa mas não, as coisas fogem-me mesmo, a tal ponto que ainda na passada semana fui buscar o meu candeeiro de quarto à rotunda do Areeiro.

E o curioso é que não é a primeira vez que me acontece, já dei por mim de robe e pantufas atrás do meu frigorífico em Setúbal, das minhas calças no Sabugal, da minha carteira pertíssimo de Peniche e de uma novíssima máquina de lavar roupa que me fugiu para Aljustrel.

E não sei o que lhes faça, repreendo-as, digo-lhes em tom irado “não faças mais isto, olha que te troco de uma vez por todas” mas nenhuma delas parece importar-se. E entre as reincidentes, há três que me dão cabo da vida e me a tiram, literalmente.

Se querem a verdade — e não vejo porque não a queiram — já terei perdido mais de dois anos à procura das chaves de casa. Um ano e meio em busca dos telemóveis, um ano à procura das calças e igual período à procura de uma esferográfica que ainda agora aqui estava.

De resto, no exacto momento em que escrevo esta crónica, acabo de perceber que perante a minha notória concentração, o meu aspirador acaba de se escapulir pela janela.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store